A religião cristã
não se resume ao cumprimento de algumas normas e preceitos elementares, mas
pede de nós que coloquemos, com generosidade, nossos bens a serviço dos irmãos.
Na liturgia
da Santa Missa, quando rezamos o ato penitencial, pedimos perdão a Deus por
aqueles pecados veniais que
cometemos contra os seus Mandamentos — juízos temerários, impaciências,
irritações, distrações durante a oração etc. — e também por nossas
omissões: verbo, opere et omissióne… Com isso, a Igreja quer recordar
os dois aspectos da vida de santidade: um, já sabemos, é o da rejeição ao
pecado. O outro, por sua vez, trata da obrigação de colocarmos nossos dons a
serviço do bem, como um ato de agradecimento a Deus e de caridade para com
nossos irmãos na fé.
Para muitos
católicos, a vivência do cristianismo consiste apenas no cumprimento de alguns
preceitos, obviamente importantes, como ir à Missa aos domingos, confessar-se,
rezar o terço etc. Na famosa parábola dos talentos, porém, Jesus
demonstra que a religião cristã vai muito além disso e faz uma advertência contra nossas omissões
deliberadas (cf. Mt 25, 14-30).
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“A omissão é o pecado com que mais facilidade se comete e
com mais facilidade se desconhece; e o que facilmente se comete e
dificultosamente se conhece, raramente se emenda."
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Notem que o servo “mau e preguiçoso” não cometeu nenhum ato contra a lei divina. Não matou nem roubou. Em vez disso, guardou o dom que havia recebido de seu patrão e, quando este voltou para pedir-lhe contas, entregou-lhe o mesmo talento como o havia recebido. Ele cumpriu o preceito.
À primeira
vista, a atitude desse empregado parece justa e até prudente; afinal de contas,
ele protegeu a propriedade de seu senhor contra quaisquer possíveis ataques.
Mas, por
outro lado, faltou-lhe a generosidade e a
proatividade de seus irmãos que, cultivando aqueles mesmos talentos,
multiplicaram os negócios e espalharam o bem, como dizia Santo Tomás de Aquino: bonum est diffusivum sui. A omissão do servo mau é
tratada com severidade pelo patrão justamente porque esse servo deixou de
multiplicar o bem: “E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali
haverá choro e ranger de dentes.” (Mt 25, 30)
Em nossa vida
cotidiana, sofremos a perigosa tentação de acreditar, como acreditou o servo
mau, que, para agradar a Deus, basta a rejeição ao pecado e o cumprimento de
algumas normas. Frequentamos os sacramentos, guardamos a castidade, não fazemos
fofoca, não cobiçamos as coisas alheias etc. Assim aparentamos uma vida de grande piedade cristã sem que
notemos a infecundidade dessa mesma vida, que não é gasta pelo bem dos outros.
Daí que Padre
Antônio Vieira alerte, em um de seus sermões, para a gravidade das
omissões: “A omissão é o pecado com que
mais facilidade se comete e com mais facilidade se desconhece; e o que
facilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A omissão é um pecado que se faz
não fazendo” [1].
Como deve
agir, então, a pessoa que não quer pecar por omissão?
Em primeiro
lugar, é preciso distinguir bem o que significa omitir-se diante de uma
situação e quando isso constitui um pecado, pois há ocasiões em que, de fato,
não podemos fazer nada que esteja a nosso alcance prático real.
É preciso
superar a tentação do indiferentismo, este pecado que está profundamente ligado
ao bem que deixamos de praticar.
Na carta de
São Tiago encontramos a seguinte advertência: “Aquele que souber fazer o bem e não o faz, peca” (4, 17). Vejam, assim, que a
omissão somente ocorre quando a pessoa tem condições de fazer algo de bom, mas
não o faz por alguma desculpa: medo, preguiça, indiferença… Por
conseguinte, o primeiro passo no combate
aos pecados de omissão é o de reconhecer nossos dons e limitações para que, no momento
oportuno, estejamos preparados para agir generosamente ou limitarmo-nos a rezar
em silêncio, o que já constitui um grande ato de caridade.
Com
efeito, é preciso superar a tentação
do indiferentismo, este pecado que está profundamente ligado ao bem que
deixamos de praticar. Segundo uma
lógica da obrigatoriedade, somos levados a cumprir apenas o que manda a regra
do bom mocismo e da etiqueta. Tudo o que foge disso, porém, é tratado como
coisa secundária, indiferente, que pode ser deixada para depois.
Em um livro
seu sobre as omissões, o Padre Luiz Fernando Cintra adverte justamente contra
esse comportamento, recordando a quem deseja uma vida cristã coerente que
A luta em geral não consiste numa
escolha constante entre o bem e o mal, mas entre a
generosidade e a falta de generosidade, entre fazer o bem completo, ou só parte dele, omitindo o que não é
“obrigatório”, como se o cristianismo fosse um salário mínimo. [2]
Quando na direção espiritual
algumas pessoas me perguntam como podem ser mais generosas e evitar os pecados
de omissão, costumo lhes sugerir que encarem a questão de outra maneira. Em vez
de repassarem os mandamentos de memória (embora às vezes não sejam capazes de
enumerar todos os dez mandamentos da lei de Deus e muito menos os da Igreja), a
fim de descobrir no que ficaram devendo, proponho imaginarem o que Jesus faria
no seu lugar: como Ele cuidaria das minhas obrigações, como Ele
trataria os meus familiares, como Ele cumpriria as minhas obrigações
religiosas, como Ele pensaria sobre as pessoas que estão à minha volta, como
Ele falaria delas, como Ele ajudaria as pessoas necessitadas… E então aparecem, “como num passe de mágica”, uma
enorme quantidade de coisas que se poderiam fazer muito melhor! São as omissões
que vêm à luz. [3]
Como remédio
para o pecado de omissão, Padre Cintra aconselha-nos a colocarmo-nos no lugar
de Jesus para descobrirmos o que Ele faria em determinada situação:
A vigilância
contra os pecados de omissão serve, sobretudo, para o cuidado com os irmãos,
pois, quando nos omitimos diante da
fragilidade de alguém, recusando-nos a ajudá-lo, colocamos em risco a salvação
dessa pessoa.
Na Quaresma de 2012, o então Papa Bento XVI dedicou sua tradicional mensagem justamente ao tema da “correção fraterna”, que é uma das coisas mais negligenciadas entre os cristãos nos dias de hoje. No texto, o Papa recordava as recomendações da Carta aos Hebreus, para que “prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (10, 24), como forma de combater a atitude que, com frequência, prevalece em nossa sociedade: “a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela ‘esfera privada’” [4].
Na Quaresma de 2012, o então Papa Bento XVI dedicou sua tradicional mensagem justamente ao tema da “correção fraterna”, que é uma das coisas mais negligenciadas entre os cristãos nos dias de hoje. No texto, o Papa recordava as recomendações da Carta aos Hebreus, para que “prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (10, 24), como forma de combater a atitude que, com frequência, prevalece em nossa sociedade: “a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela ‘esfera privada’” [4].
A omissão
nossa de cada dia, atenção, pode acabar levando muitas almas ao inferno.
Fujamos, portanto, desse perigoso pecado e aprendamos a fazer o bem em todas as
circunstâncias de nossas vidas.
Artigo retirado do site Christo Nihil Praeponere (8 de outubro de 2017)
